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Crítica | Profundezas: Netflix abandona o terror e desperdiça seus próprios mistérios

18/10/2026 · Vinícius Mercês

Nota Cinefolia: ⭐ 1/5

Com uma criatura colossal, uma atmosfera sombria e uma premissa intrigante, Profundezas começa como um promissor suspense de monstros, mas abandona sua identidade em favor de uma trama anticlimática e explicações insuficientes.

A minissérie Profundezas, da Netflix, apresenta ao longo de seus seis episódios uma história que mistura mistério, suspense, elementos místicos e uma criatura gigantesca que ameaça os habitantes de uma ilha.

A proposta inicial é interessante. Existe uma ameaça desconhecida, uma comunidade cercada de segredos e uma série de acontecimentos que levantam perguntas sobre a origem e as motivações da criatura.

O problema é que, conforme a história avança, a série parece abandonar justamente os elementos que a tornavam interessante.

Uma premissa sombria e cheia de possibilidades

A narrativa de Profundezas pode ser dividida em três grandes momentos: a apresentação do mistério, seu desenvolvimento junto aos habitantes da ilha e, finalmente, sua resolução.

É principalmente nos dois primeiros momentos que a produção encontra seus melhores elementos.

A criatura é apresentada como uma ameaça verdadeiramente colossal e assustadora. Sua existência levanta diversas perguntas: de onde veio? Por que está naquele lugar? O que motiva suas ações? Qual é sua ligação com o misticismo que envolve a ilha?

Esses questionamentos ajudam a construir uma atmosfera sombria e intrigante, fazendo com que o espectador queira compreender o que realmente está acontecendo.

A relação entre os habitantes da ilha e a criatura também acrescenta possibilidades à narrativa, sugerindo que existe algo muito maior por trás dos acontecimentos.

Entretanto, boa parte desse potencial acaba desperdiçada.

Respostas insuficientes e conveniências de roteiro

O principal problema de Profundezas não é simplesmente a quantidade de mistérios apresentados, mas a maneira insatisfatória como eles são desenvolvidos e respondidos.

Conforme os episódios avançam, a série introduz elementos que parecem fundamentais para compreender a criatura, seu comportamento e sua ligação com os habitantes da ilha.

Entretanto, as explicações apresentadas são insuficientes, apressadas e não justificam satisfatoriamente tudo aquilo que a própria narrativa construiu.

O comportamento da criatura é um dos exemplos mais evidentes.

Em determinados momentos, ela é apresentada como uma ameaça implacável. Em outros, parece mudar completamente suas intenções, atacando alguns personagens enquanto poupa outros, sem que o roteiro desenvolva justificativas convincentes para essas diferenças.

A impressão é de que a criatura age conforme a necessidade da trama, e não de acordo com uma lógica consistente.

E quando o perigo parece depender exclusivamente das conveniências do roteiro, a tensão construída anteriormente começa a desaparecer.

De um suspense de monstros a uma história sobre corporações

Talvez a maior decepção de Profundezas esteja na mudança de direção que a narrativa assume.

A série começa explorando um universo sombrio, repleto de mistérios, misticismo e uma criatura que parece representar uma ameaça praticamente incompreensível.

Essa atmosfera é justamente o que desperta o interesse inicial.

Entretanto, conforme a trama se desenvolve, a produção abandona gradualmente esse lado sombrio e mitológico para apostar em uma abordagem muito mais convencional, centrada no enfrentamento de interesses corporativos.

O que inicialmente parecia ser uma história sobre uma ameaça monstruosa e desconhecida acaba se transformando em mais uma narrativa sobre a luta contra corporações.

E essa mudança não funciona.

Não porque uma crítica ao poder corporativo seja necessariamente uma escolha ruim, mas porque a série não consegue fazer essa transição de maneira convincente, deixando de lado os elementos mais interessantes de sua própria premissa.

O resultado é uma história que perde sua identidade e se torna consideravelmente menos envolvente.

Um plot twist que enfraquece a própria história

Atenção: este trecho contém spoilers sobre a natureza da criatura.

Outro ponto decepcionante está na revelação de que a criatura, inicialmente apresentada como uma grande ameaça, não é exatamente a vilã da história, mas também uma vítima.

Em teoria, essa inversão poderia acrescentar profundidade à narrativa, oferecendo uma nova perspectiva sobre os acontecimentos anteriores.

Entretanto, a maneira como a série desenvolve essa revelação é completamente anticlimática.

Depois de construir uma atmosfera de terror e mistério em torno de uma criatura colossal, a produção parece querer desconstruir rapidamente tudo aquilo que apresentou.

O problema não está necessariamente na ideia de transformar o monstro em vítima, mas na execução dessa mudança.

Falta desenvolvimento para que a revelação tenha o impacto emocional pretendido e, principalmente, para que ela justifique satisfatoriamente o comportamento da criatura ao longo dos episódios.

Em vez de uma grande reviravolta, o que temos é uma resolução que enfraquece retroativamente boa parte do suspense construído.

Uma conclusão simples e apressada demais

Se o desenvolvimento já apresenta problemas, a conclusão é ainda mais decepcionante.

Depois de dedicar boa parte dos seis episódios à construção de mistérios, Profundezas parece ter pressa em encerrar sua narrativa.

As explicações surgem de maneira acelerada, os conflitos encontram soluções convenientes e questões que deveriam receber maior atenção acabam sendo tratadas superficialmente.

A sensação é de que a série passou muito tempo criando expectativas que não conseguiu corresponder.

O desfecho não apenas deixa a desejar como também evidencia a dificuldade do roteiro em conectar suas diferentes propostas: o terror de monstros, o misticismo, os conflitos entre os habitantes e a crítica corporativa.

Tudo acaba resolvido de uma maneira simples demais para uma história que prometia ser muito mais complexa.

Veredito Cinefolia

Profundezas começa com uma premissa promissora, uma criatura visualmente ameaçadora e uma atmosfera sombria capaz de despertar curiosidade.

Entretanto, o roteiro desperdiça esse potencial ao acelerar seu desenvolvimento, recorrer a conveniências e oferecer explicações insuficientes para os próprios mistérios.

A decisão de abandonar gradualmente o suspense de monstros e o misticismo em favor de uma trama corporativa enfraquece ainda mais a narrativa.

E a revelação de que a criatura também é uma vítima, que poderia representar uma reviravolta interessante, acaba se tornando um dos momentos mais anticlimáticos da produção.

Não é necessário explicar cada detalhe de uma história de mistério, mas é essencial que suas principais respostas sejam coerentes com aquilo que foi construído.

No fim, Profundezas parece tão preocupada em surpreender o espectador com uma mudança de perspectiva que esquece de desenvolver satisfatoriamente a história que apresentou no início.

Um oceano de mistérios, uma gota de respostas e uma criatura que acaba sendo menos assustadora do que as decisões do próprio roteiro.

Nota Cinefolia: 1/5 ⭐

Nota da série

1/5

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